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A importância do planejamento paisagístico para qualidade de vida nas cidades

O projeto paisagístico busca integrar a cidade com seu entorno natural, sejam um rio, uma área verde, uma montanha ou o mar. Um bom planejamento deve promover a integração destes elementos ao ambiente urbano, produzido pelo homem. “Isso se reflete em uma relação mais harmônica da cidade com a natureza”, explicou Thais Michelão, arquiteta e urbanista e especialista em paisagismo. Thaís está finalizando a Especialização 90E em Arquitetura, Urbanismo e Engenharia Civil oferecida pela FECFAU – Unicamp, que tem como tema o HIDS.

O principal objeto de análise de estudo do paisagismo urbano são os espaços livres de edificação, públicos ou privados. Isso inclui desde o quintal de uma propriedade privada, ruas, praças, parques, até as áreas verdes urbanas. De acordo com a aluna da Unicamp, as áreas livres têm um papel fundamental na cidade, é onde o convívio entre as pessoas e a vida pública acontecem.

Adensamento – Uma das maneiras de ampliar os espaços livres é o adensamento, ou seja, adensar os espaços construídos para liberar mais solo e ter mais áreas de convívio público. As propostas de ocupação que estão sendo discutidas para área do HIDS vão nesse sentido.

No Brasil ainda há muitos desafios na integração entre natureza e espaço urbano. Segundo Thais, estas questões são tratadas separadamente e é muito frequente que a questão ambiental fique em segundo plano. A impermeabilização do solo, a transformação do ambiente para implementar ruas, edificações etc., resulta em fragilidades ambientais. “Problemas de enchentes no período de chuva estão entre os efeitos mais frequentes da falta de planejamento paisagístico. “Isso acontece porque os processos naturais não foram levados em consideração no planejamento”, aponta Thais.

O planejamento equivocado também implica em desigualdades no acesso as áreas livres na cidade. “É frequente que em bairros de renda mais baixa, haja poucos espaços públicos e, se eles existem, não há nenhum tipo de projeto. Muitas vezes são terrenos que sobram, sem que haja, de fato, uma vida pública e comunitária”, explica o arquiteto Haroldo Pereira, também aluno da especialização da FECFAU. Esta é uma situação que acaba contribuindo para criminalidade e sensação de insegurança. “Em compensação, em áreas mais ricas há praças, jardins, parques, oportunidades de lazer e bem estar. No Brasil, hoje, temos estes dois grandes problemas: não levar em conta os processos naturais no planejamento das cidades e a desigualdade no acesso a espaços livres de qualidade pelas diferentes camadas da população”, pontua o arquiteto.

O planejamento tem impacto direto na qualidade de vida na cidade. Um modelo de cidade baseado em condomínios fechados de alto padrão, com muros altos, sistema viário que privilegia os carros, não cria um espaço público onde as pessoas possam caminhar, se encontrar, ele não favorece o encontro e o convívio. “É um modelo que gera esses abismos na sociedade, com pessoas que realmente não tem ideia que existem outras realidades”, considerou Thais. O bom planejamento paisagístico tem que pensar nesta relação dos espaços construídos com os espaços livres e incluir a rua.

Verticalização bem planejada viabiliza manutenção de áreas livres na cidade. Fonte: Bechmarking 21 Soluções/Projeto Físico Espacial do HIDS

Verticalização – A verticalização mal planejada também pode criar uma distância entre as pessoas e a cidade. “E quando você cria um afastamento muito grande da rua, a rua vira terra de ninguém”, lembrou Thais. “Hoje adotamos um modelo de verticalização que resulta em edifícios isolados no lote, afastados da rua”, disse. Uma alternativa é considerar a ocupação da quadra e não do lote e estabelecer ligações do edifício com a rua. Ela explicou que a verticalização é importante para liberar solo, ocupar menos espaços, ter mais áreas públicas e livres, mas sem perder essa escala da rua, essa relação do pedestre com a edificação.

Uma alternativa nesse sentido é adotar fachadas ativas, isto é, implementar no primeiro e segundo pavimentos dos prédios, lojas, restaurantes, bares. Com isso, há diferentes usos destes espaços em diferentes horas do dia. “É um tipo de planejamento que cria uma sensação de segurança porque confere vitalidade aos espaços, com ruas em que há movimento e com espaços que atraem as pessoas”, disse Thais.

Essas conexões melhoram a vitalidade do espaço urbano, criam amenidades para que as pessoas consigam acessar outros espaços da cidade com qualidade ambiental e, ao mesmo tempo, com um percurso que traga algum tipo de qualidade de vida para o trajeto dessas pessoas, para que elas tenham diversidade de experiências enquanto caminham pela cidade. “A verticalização em si não é um problema, mas a forma como essa verticalização acontece. Nos projetos que estudamos para elaborar propostas para o HIDS, exploramos esta conexão dos espaços”, contou Haroldo.

A ideia, segundo ele, foi pensar a ocupação do HIDS a partir de quadras compactas onde a edificação e seu entorno têm uma relação com a rua, liberando espaço na quadra para praças, pequenos espaços livres de convívio das pessoas e para aumentar a permeabilidade dessa quadra, ter arborização, melhorar a infiltração de água do solo. “Com isso podemos melhorar o micro clima local, viabilizar um caminhar mais agradável pelas calçadas por entre as quadras. E, não menos importante, melhorar a questão hídrica por meio da drenagem da água da chuva”, explicou Haroldo.

A cidade como um projeto político – A produção de espaço depende, portanto, de articulações políticas complexas que passam pelo público e pelo privado e quanto maior a escala, mais difícil. Para serem bem-sucedidos é preciso integrar os aspectos ambientais, o projeto urbano, o interesse público e a participação da comunidade que, no fim das contas, e quem vai usufruir dos espaços e da cidade. “Sem o engajamento de vários atores e sem a vontade política é muito difícil realizar projetos com impacto significativo na qualidade de vida da cidade”, afirma Haroldo

O planejamento da cidade, no qual está incluído o projeto da paisagem, é multidisciplinar e tem que levar em conta os interesses da sociedade como um todo. “Esta é uma preocupação que a temos nos estudos do HIDS, consideramos as diversas dimensões da sustentabilidade, não só a dimensão ambiental, daí a importância da participação social, que pessoas se envolvam no planejamento, na gestão do bairro, da cidade delas”, complementou a arquiteta e aluna da FECFAU/Unicamp.

Paisagens urbanas o foi tema do podcast “NoAr”, produzido pela Diretoria Executiva de Direitos Humanos da Unicamp (DeDH). Confira esta edição aqui.

Por Patricia Mariuzzo

A Especialização em Arquitetura, Urbanismo e Engenharia Civil (Curso 90E), ligado ao programa de pós-graduação lato sensu da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp tem como objetivo colocar em prática pesquisas científicas ligadas ao ambiente urbano dentro de uma perspectiva socioambiental. O curso compreende atividades teóricas e práticas, além de um Trabalho de Conclusão de Curso, ao longo de 12 meses, em regime de dedicação integral.

Em seu primeiro oferecimento (2021/21), a Especialização AU/EC propôs como tema o desenvolvimento do projeto urbano para o HIDS. Os 15 participantes tem a oportunidade de interagir com uma equipe de professores, pesquisadores, instituições públicas e empresas envolvidas nesse projeto interdisciplinar de formulação de propostas para o uso e ocupação da área do Polo de Alta Tecnologia, na região norte de Campinas.

Todo o material que resultou dos estudos da especialização da FEC/FAU está disponível para consulta neste link: https://sites.google.com/unicamp.br/especializacaoauec/produtos?authuser=0

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