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Agrofloresta: uma alternativa para as áreas verdes do HIDS

Sistemas agroflorestais, ou SAFs, são arranjos sequenciais de espécies ou de consórcios de espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas, através dos quais se busca, ao longo do tempo, reproduzir a dinâmica sucessional da vegetação original, sua estrutura e funcionalidade, visando atender demandas humanas de modo sustentável ao longo do tempo. Entre os inúmeros benefícios dos SAFs estão o aumento da biodiversidade, redução de perdas por insetos e doenças, manutenção da fertilidade natural do solo, uso racional da água e sequestro de carbono. São, portanto, sistemas mais sustentáveis que poderiam ser uma alternativa para as áreas verdes do HIDS.

No território de planejamento para criação do Hub há fragmentos de mata, com remanescentes de Mata Atlântica e de Cerrado, áreas de preservação ambiental e corredores ecológicos. Atividades urbanas e rurais se misturam, sendo que as atividades rurais adotam um tipo de agricultura convencional, de monocultura. “É uma área muito complexa, de grande fragilidade ambiental”, afirmou a arquiteta e urbanista, Patricia Sanches, que estuda modelos de desenho urbano que conciliem maior densidade e cobertura vegetal e que participa da elaboração do plano diretor do HIDS. “Queremos criar um hub de inovação, atrair empresas e instituições de pesquisa e, ao mesmo tempo, proteger os fragmentos de mata existentes e conectá-los. O HIDS pode ser uma área central de conexão destes fragmentos e corredores”, disse a arquiteta durante evento sobre agrofloresta que aconteceu no dia 11 de agosto, organizado pela FEC Unicamp e pelo HIDS.

Para isso, além de uma matriz urbana, com áreas verdes intra quadras, é preciso pensar em espaços lineares vegetados para permitir a conectividade ecológica de uma ponta a outra do HIDS, espaços que percorram o território. “Esses espaços lineares podem ser de diversas categorias, sendo uma delas estes corredores com áreas verdes produtivas, para fins econômicos”, pontuou Sanches.

Fragmentos de Vegetação Natural. Crédito: equipe componente físico-espacial do HIDS

Sistemas agroflorestais podem ser aplicados em diversas situações e escalas, como por exemplo, em áreas de proteção permanente (APP), encostas, ao longo de rios e nascentes, em áreas de reserva legal, em fragmentos de floresta e mesmo para agricultura de subsistência e familiar. De acordo com a engenheira agrônoma Leila Pires, também presente no evento, os SAFs também podem ser utilizados em áreas urbanas para recomposição de áreas verdes, formação e proteção de corredores ecológicos e até para produção de alimentos. Para Patricia Sanches, introduzir agroflorestas nas bordas dos corredores ecológicos do HIDS seria uma boa opção porque elas podem servir como uma espécie de filtro ou de amortecimento, ajudando a atenuar os impactos negativos provenientes das atividades urbanas nestas áreas. As faixas de amortecimento representariam 3% do território do HIDS ou 41 hectares e os corredores ecológicos (previstos em lei) 5% da área planejada para o Hub.

Cooperação – Um sistema agroflorestal pode ser formado por [árvores + culturas], [árvores + animais] ou ainda [árvores + culturas + animais]. No entanto, ele só pode ser chamado de agroflorestal se tiver pelo menos uma espécie tipicamente florestal, nativo daquele ecossistema. Enquanto no monocultivo as plantas competem quando estão muito próximas umas das outras, no SAF, ao utilizar plantas de vários estratos e de estágios sucessionais diferentes, elas passam a cooperar umas com as outras. Um exemplo seria plantar milho, feijão, abóbora e girassol em conjunto. “Neste consórcio uma planta ajuda no desenvolvimento da outra. Por exemplo, o feijão capta nitrogênio do ar e disponibiliza este nutriente para o milho, enquanto o milho dá suporte para o crescimento do feijão. Já a abóbora, ao cobrir o solo, gera uma proteção que mantém a umidade e, ao mesmo tempo, impede o crescimento espontâneo de plantas indesejadas”, explicou Leila Pires. Ainda de acordo com ela, este sistema proporciona maior aproveitamento da área cultivada, economia nos insumos e irrigação, controle biológico, controle de plantas espontâneas, cobertura para o solo, diminuição da perda de água, suporte e disponibilização de nutrientes.

Ilustração de um consórcio de milho, feijão, abóbora e girassol. Crédito: Apresentação Leila Pires

O estabelecimento de SAFs atende a vários Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), por exemplo, alimentação saudável e saúde mental, segurança alimentar e hídrica, biodiversidade e serviços ecossistêmicos e a mitigação de mudanças climáticas, por conta do sequestro de carbono que eles geram. “Há ainda grande potencial de retorno econômico neste modelo. Estudos na literatura apontam que o sistema pode gerar 19 mil dólares por hectare durante um período de 30 anos, ou seja, além de propiciar desenvolvimento sustentável, esta pode ser uma escolha muito rentável”, apontou Patricia Sanches.

Em Campinas, um processo de implementação de SAF está em curso no Sítio Boa, localizado no Distrito de Joaquim Egídio. “Começamos em fevereiro deste ano e já percebemos mudanças como o retorno de pássaros e a recuperação de algumas áreas”, contou um dos proprietários do Sítio, Daniel Coudry. A propriedade, com cerca de sete alqueires, estava com partes degradadas. As áreas de nascente também estavam desprotegidas. “Após uma série de estudos de solo e análise do mercado de orgânicos, optamos pelo sistema agroflorestal”, disse Coudry. “Começamos com um processo de enriquecimento e restauração da mata nativa do sítio por meio da plantação de duas mil mudas de juçara, uma palmeira nativa da Mata Atlântica que fornece palmito e um fruto parecido com açaí. Iniciamos ainda um consórcio com café, frutas e árvores para extração de madeira e outro com Pupunha e árvores de frutos cítricos”, relatou.

De acordo com Lucas Coudry, que também acompanha o processo de aplicação de SAF no Sítio Boa, até agora já foram plantadas quase 2 600 mudas. Ainda está nos planos dos proprietários introduzir abelhas para ajudar no processo de polinização e desenvolver outros consórcios com hortaliças, plantas medicinas e ervas e temperos e obter a certificação de produtor orgânico.

Fazendo a diferença – O sistema agroflorestal representa um importante passo em direção à sistemas produtivos agrícolas mais sustentáveis. Ele dispensa o uso de agrotóxicos, ele entrega alimentos e produtos mais saudáveis, sem comprometer o solo, a água e a saúde dos trabalhadores e consumidores. “Também permite maior retorno econômico por meio de uma produção diversificada, com custos de implantação e manutenção reduzidos. Além disso, é um modelo que tem maior produtividade, diversidade, retorno econômico, aliados à conservação ambiental”, acrescentou Daniel.

A gravação do evento está disponível no canal do HIDS no YouTube

Por Patricia Mariuzzo

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