Notícias

Apresentação do HIDS para o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano

No dia 01 de junho, a professora Gabriela Celani, coordenadora da componente físico-espacial do HIDS, apresentou o projeto do HIDS para os membros do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano (CMDU). De caráter consultivo e fiscalizador, o objetivo do CMDU é promover a participação, autônoma e organizada da comunidade, no processo de planejamento e discussão da evolução urbana do Município. Ele é composto por representantes de associações de moradores, de movimentos populares, de entidades de defesa e controle ambiental, de sindicatos, empresas, entidades profissionais representativas, pelos Poderes Legislativo e Executivo e por representantes de universidades.

A reunião, que teve transmissão pelo YouTube, foi aberta pelo presidente do Conselho, o arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, João Manuel Verde dos Santos. Além dos conselheiros estavam presentes os coordenadores da equipe de planejamento do HIDS e o coordenador geral do projeto na Unicamp, professor Mariano Laplane. “Eu vejo três fortes tendências para o futuro: o intenso processo de digitalização que está mudando e deve mudar ainda mais nossa relação com o mundo; a mudança climática, que já coloca sintomas claros como insegurança hídrica, alimentar e energética, e que deve impulsionar iniciativas de descarbonização da economia no mundo inteiro. A terceira tendência é um crescimento das convulsões sociais”, disse Laplane. Segundo ele, à medida em que as pessoas percebem sua qualidade de vida ameaçada, elas reagem com medo, pânico e isso torna urgente pensar novos modelo de desenvolvimento para as cidades e não é diferente para a cidade de Campinas. “É fundamental pensar novos modelos de desenvolvimento urbano e o HIDS é uma forma cooperativa e participava de pensar esse novo modelo de desenvolvimento. Os desafios são enormes, mas esse hub tem o potencial de ser um grande ensaio de soluções sustentáveis que poderão ser replicadas em outras cidades no Estado de São Paulo e do Brasil”, completou o professor do Instituto de Economia da Unicamp.

Na sequência a professora Gabriela Celani fez uma apresentação detalhada sobre o projeto de implantar um Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável em Campinas.

Em termos geográficos, o HIDS corresponde à antiga área do Ciatec 2 acrescida da área completa do campus Zeferino Vaz, da Unicamp, da Fazenda Argentina, adquirida pela Universidade em 2014 e do campus 1 da PUC-Campinas. A professora Gabriela lembrou que essa região abriga importantes instituições de pesquisa que foram chegando ao longo dos anos, como a PUC-Campinas, a própria Unicamp, o CPQD, nos anos 1970, quando também aconteceu a concepção da Companhia de Desenvolvimento Polo Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec), pelo professor Rogério Cerqueira Leite. Nos anos 1980 se instalam na região a TRB Pharma e o Centro de Inovação da Cargill América Latina. Em 1997 é criado do CNPEM e a instalação do Laboratório de Luz Sincrotron. Em 2014, o Santander também se instala na área. No mesmo ano começa a construção do segundo acelerador de partículas brasileiro, o Sirius, inaugurado em 14 de novembro de 2018.

Gabriela Celani fez um histórico de vários estudos e planos de desenvolvimento urbano para essa região. Em 1996, foi elaborado o Plano de Gestão Urbana de Barão Geraldo, feito em uma colaboração da PUC-Campinas, a Unicamp e a Prefeitura de Campinas. De acordo com ela, esse Plano já detectava uma dificuldade de atração de empresas e indústrias para região do Ciatec 2, especialmente por causa do elevado custo da terra e da falta de incentivos fiscais. Apontava ainda a questão do sistema viário bastante limitado, a necessidade de habitações de interesse social e a possibilidade de se criar um parque linear ao longo do Ribeirão Anhumas, que corta a região.

Em 2008 a Agência de Inovação da Unicamp, Inova, contrata a empresa Pratec para fazer um novo estudo sobre a área. “Esse estudo detecta os mesmos problemas apontados no Plano de Gestão Urbana de Barão: as restrições do zoneamento para empreendimentos residenciais, o alto preço da terra. Além disso, as propostas que o estudo traz mantém uma lógica de forte segregação entre usos industriais e residenciais”, disse a pesquisadora. Em 2009, a Prefeitura de Campinas encomenda um projeto para o escritório do arquiteto Jaime Lerner. “Após ser entregue, este projeto sofreu várias transformações ao longo do tempo, inclusive porque a área também foi mudando por conta da aquisição de certas glebas. Mas, ao contrário dos planos anteriores, esse plano propunha uma via perimetral que levaria o trânsito mais a leste, mas ainda assim havia a ênfase na mobilidade de sul a norte, com eixos com bastante adensamento, grandes avenidas, com um grande canteiro central”, explicou Gabriela Celani.

Posteriormente, parte das propostas do escritório de Jaime Lerner são incorporados ao Plano Diretor da cidade de Campinas, aprovado em 2018.”No entanto, houve uma reação forte da população rejeitando essas propostas por receio do alto impacto que elas poderiam gerar no Distrito de Barão Geraldo”, lembrou Celani. Ainda segundo ela, o sistema viário que havia sido proposto neste projeto de Lerner foi aprovado, mas o zoneamento em si acabou continuando bastante restritivo, designando a área como zona de atividade econômica (ZAE), com baixo coeficiente de aproveitamento.

No cenário atual, o custo da terra nesta região continua bastante elevado. Na opinião da pesquisadora da Unicamp, a implantação de um projeto novo, entre o Shopping D. Pedro e a Unicamp, o Reserva D.Pedro, provavelmente vai oferecer lotes com infraestrutura de acesso que vão gerar uma competição com o HIDS. Além disso, já há outros empreendimentos aprovados ou sendo planejados para a região, alguns deles com direito de protocolo anterior à atual legislação do Plano Diretor. Isso permite fazer propostas de áreas de habitação unifamiliar com baixa densidade, condomínios fechados e zonas de atividade econômica separadas, geralmente perto das áreas de maior movimento. “Isso pode se constituir em uma barreira para as possibilidades que estamos visualizando para esse território em nossos estudos”, alertou a professora da Unicamp. Além disso, segundo ela, existem perspectivas de ocupação de áreas ao norte do HIDS, áreas de expansão urbana que criam uma pressão por um sistema viário que vai fazer uma travessia da área. “Isso também pode não ser interessante para o hub de inovação que estamos imaginando”, acrescentou. “Hoje, portanto, temos uma situação de conflito, com diferentes agentes expressando interesses variados para a região sem ter uma legislação que dê conta de atender às expectativas de todos”, afirmou.

Projeto urbano e sustentabilidade – Com a assinatura de um convênio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, a Prefeitura de Campinas e a Unicamp em 2020 para o desenvolvimento de um master plan para a área do Ciatec, Unicamp e PUC-Campinas, isto é, do HIDS, surgiu uma nova possibilidade de ocupação desse território, um tipo de planejamento fortemente comprometido com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU. O BID está investindo, a fundo perdido, US$ 1 milhão para ajudar a desenvolver esse plano diretor para a área. A Unicamp fez uma parceria com outras 13 instituições e criou o Conselho Consultivo Fundador, composto por representantes de empresas e instituições já instaladas na região e mais a Sanasa e a CPFL.

Na Unicamp, um grupo de professores de diferentes áreas trabalha na elaboração de estudos sobre o HIDS. Eles são divididos em “componentes”. Uma dessas componentes é a equipe do desenho urbano, ou componente físico-espacial do HIDS, coordenada pela professora Gabriela Celani. O BID também contratou a consultoria Inventta para fazer a gestão do projeto, uma pessoa para a área de comunicação e uma equipe da PUC-Campinas para desenvolver um modelo jurídico para o HIDS. Ainda será contratada uma empresa coreana, o KRIHS, para fazer o projeto urbano. “A equipe do projeto físico-espacial conta com professores da Unicamp e da PUC-Campinas, com colaborares da equipe da Diretoria Executiva de Planejamento Integrado (DEPI/Unicamp) e da Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Campinas”, explicou Gabriela. Segundo ela essa equipe interdisciplinar tem um plano de trabalho que envolve desde uma análise do território, estudos de caso e uma interação forte com as demais componentes do projeto. “No momento estamos trabalhando com a elaboração de cenários, levando em conta a necessidade de preservar a diversidade, a potencialidade dos corredores de fauna e flora e os cuidados necessários para fazer a transposição dos corredores ecológicos, a questão da drenagem e gestão hídrica e da mobilidade, considerando um tipo de rua mais completa e mais preparada para o pedestre e o ciclista, de acordo com preceitos do urbanismo sustentável”, contou Celani.

Cenários para o HIDS que estão sendo elaborados pela equipe coordenada pela Unicamp procuram levar em conta a necessidade de preservar a diversidade da fauna e flora e a necessidade de tomar os cuidados necessários para fazer a transposição dos corredores ecológicos. Crédito da imagem: Gabriela Rosa.

O grupo coordenado pela professora fez um extenso estudo de locais no mundo em que existem laboratórios de luz sincrotron, ao redor dos quais estão surgindo ou já surgiram hubs de inovação. Na apresentação ela destacou o exemplo de Paris-Saclay, ao sul da cidade de Paris, na França. “O interessante é que esse é um projeto de interesse nacional, considerado estratégico para o país. Em seu planejamento há forte preocupação com a drenagem, aplicação de soluções baseadas na natureza, em criar roteiros turísticos ligados ao patrimônio histórico da área, uso misto, habitação de interesse social, complementados por um projeto estratégico de comunicação com a sociedade”, destacou Gabriela. Segundo ela, o resultado é um cenário urbano mais contínuo, de menor gabarito (menos pavimentos), com uso misto e com bastante qualidade ambiental. “Por exemplo, áreas com grandes estacionamentos foram convertidas em lagoas de contenção de inundações”, contou. O financiamento tem sido feito por meio do mecanismo da outorga onerosa.

Visão para o HIDS – A equipe, que conta com alunos de um curso de especialização criado especialmente para estudar o HIDS, está desenvolvendo três projetos estratégicos. A primeira é uma proposta para o Parque Anhumas, a segunda é para uma área de centralidades ao norte da Fazenda Argentina e o último é elaborar um desenho urbano propício para que haja interações entre o terreno público da Fazenda Argentina e o terreno privado, ao sul da Fazenda. “Temos consolidado os estudos em forma de cadernos disponíveis no site do HIDS e temos um site de trabalho com informações mais detalhadas sobre o andamento das pesquisas”, finalizou.

O professor João Verde perguntou sobre como está sendo pensado o transporte público para fazer a ligação entre essa área e o restante da cidade e até o aeroporto de Viracopos. “No caso de Paris, o governo francês está fazendo um investimento para criar uma nova linha de metrô ligando Paris a essa região, que fica de cerca de 30 km ao sul. No nosso caso, seria excelente ter investimento público em sistemas de transporte público de massa, mas isso é algo que está fora do nosso escopo de decisão. Nosso foco tem sido pensar em uma proposta de espaço propício para o tipo de inovação que acreditamos ser estratégica para a região a partir das instituições que já estão presente ali”, respondeu a professora Gabriela. “Na verdade, essa é uma das nossas limitações. Nosso papel é fazer estudos e desenhar possibilidades que devem subsidiar o trabalho da empresa coreana que está sendo contratada pelo BID”. Segundo ela, a partir dessas possibilidades será elaborado um projeto de desenho urbano pela empresa coreana e posteriormente teria que ser criado um projeto de lei para colocar o projeto em prática. “Se a lei for elaborada antes do projeto urbano, pode ser que ela tenha que passar por ajustes”, pontuou.

No entanto, a Prefeitura de Campinas já está preparando um projeto de lei de uso e ocupação do solo para a área do Ciatec. Segundo a diretora de planejamento, Carolina Baracat, entre os meses de junho e julho esse projeto de lei será discutido com o CMDU e outros conselhos e apresentado em audiências públicas. “O projeto de lei está sendo submetido agora, antes da finalização dos estudos feitos no âmbito do projeto do BID, porque esta região hoje está com zoneamento que não permite residências. Por isso a urgência de repensar o modelo de zoneamento daquele território alinhando princípios básicos de urbanismo. Quando o projeto do HIDS estiver pronto, dentro de um ou dois anos, poderemos fazer adequações na lei”, afirmou.

O professor da Unicamp, Marcelo Cunha, que coordena a componente de avaliação de sustentabilidade do projeto do HIDS, manifestou preocupação com a antecipação do projeto de lei. Para ele isso representa riscos para o projeto do HIDS. “Eu entendo que, para um projeto como um HIDS ter sucesso, ele requer uma proposição de lei que induza o desenvolvimento sustentável que queremos, ou seja, depois do projeto urbano ter avançado mais, algo que infelizmente ainda não temos hoje. A aprovação de uma lei para eventualmente ser mudada depois pode trazer perigos para o HIDS o longo do tempo, por exemplo, com o uso do território para condomínios fechados”, afirmou.

A Secretária de Desenvolvimento Econômico de Campinas, Adriana Flosi, destacou que a apresentação desse projeto de lei no CMDU já está no cronograma de apresentações desenhado pela Prefeitura e que é importante que o Conselho conheça as propostas da Prefeitura para a área. Ela afirmou ainda que o projeto do HIDS é estratégico para a cidade de Campinas e para o Estado de São Paulo e que a Prefeitura está fortemente comprometida com a evolução do projeto. Ela mencionou ainda que o projeto do HIDS foi apresentado para o Secretário Especial do Ministério da Economia, Carlos La Costa. “Nossa intenção foi mostrar que esse é um projeto de país e buscar o apoio federal”, destacou.

O coordenador geral do projeto do HIDS na Unicamp, professor Mariano Laplane, agradeceu o convite do CMDU para apresentar o projeto e lembrou que o projeto do HIDS é um teste da capacidade de diálogo e da lucidez da cidade de Campinas. “Eu não tenho dúvida de que podemos passar por esse teste. Não é algo fácil, mas acho que temos condições de levar adiante essa iniciativa tão importante”, finalizou.

Para acompanhar a reunião completa clique aqui.

Para ver a apresentação feita pela professora Gabriela Celani, clique aqui.

Por Patricia Mariuzzo

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.