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O desafio da captura e armazenamento de carbono como medida para conter o aquecimento global

Fit for 55” é o nome de um amplo programa climático da União Europeia para combater o aquecimento global. O programa prevê que as 27 nações do bloco europeu reduzam em 55% as emissões de carbono. Entre as medidas entra, por exemplo, proibir a venda de veículos a gasolina e diesel até 2035 e sua substituição por carros elétricos. A redução da emissão de CO2 é fundamental para atingir a meta de manter o aumento da temperatura do planeta em no máximo 1,5°C neste século, segundo o último relatório do IPCC. As fortes chuvas que têm atingido a Europa neste verão são um dentre tanto alertas dos efeitos das mudanças climáticas na forma de eventos naturais extremos e sobre a necessidade de medidas urgentes capazes de frear o aquecimento global.

Uma das estratégias para a redução das emissões de CO2 é a captura, utilização e armazenamento de carbono. A CCUS (na sigla em inglês) foi tema de uma disciplina (PP590) do Programa de Mestrado em Engenharia de Reservatórios e Gestão, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp. A disciplina foi coordenada pelo Prof. Dr. Antonio Bannwart e contou com a participação do ex-coordenador do Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS), professor Marco Aurelio Pinheiro Lima, do professor do Instituto de Economia, Marcelo Cunha, que também coordena a componente de avaliação de sustentabilidade do HIDS e do engenheiro Paulo Lima, que falou sobre tecnologias de captura de carbono no contexto do aquecimento global.

Buscando aproximar os alunos de experiências práticas, parte das aulas foram dadas pela gerente de tecnologia da Equinor, Andrea Achoa. A Equinor é uma estatal norueguesa de produção de energia. Está presente no Brasil há 17 anos com foco na exploração de petróleo e gás natural offshore.  A empresa está fortemente engajada no desenvolvimento de tecnologias para produção de energia de forma sustentável. Em 2019, a Equinor firmou uma parceria com a Unicamp e a Fapesp no projeto EPIC (Energy Production Innovation Center) que tem entre seus objetivos desenvolver tecnologias na área de exploração de petróleo offshore.

Entre as atividades de avaliação propostas pelo professor Bannwart, os alunos fizeram um exercício sobre aplicações de CCUS em uma escala local, no HIDS.

Para Luis Carlos Oliveira Pires, um dos alunos do curso da FEM, reverter as mudanças climáticas depende de uma mudança cultural e o que HIDS, por meio de seus laboratórios vivos, pode ser um local tanto para testar tecnologias de captura de carbono, como para medir a receptividade da comunidade local sobre estas tecnologias. Segundo ele, quando pensamos na aplicação do CCUS em escala local, é necessário considerar vários fatores: desenvolvimentos tecnológicos, infraestrutura para captura, transporte, armazenamento, ambiente regulatório, fatores econômicos (os custos de aplicação destas tecnologias) e engajamento da população local”, afirmou. Ainda de acordo com ele, existem também questões ambientais e uma legislação que regulamenta os processos de armazenamento de forma segura e eficaz. “Engajar a população local é, na minha opinião, a parte mais difícil de montar uma unidade local do CCUS, pois requer uma profunda mudança cultural. Esse trabalho deve ser realizado não apenas pelas empresas responsáveis pela implantação e operação, mas também pelos órgãos públicos e ambientais para reforçar que há um consenso entre eles, de que é funcional e não coloca a população em risco. Nesse sentido, acho fundamental que haja clareza e transparência e uma boa comunicação com a população local, identificando os prós e contras da instalação dessas unidades e esclarecendo o impacto positivo ou negativo na área local”, considerou Luis Carlos

Já a aluna Marilene Pavan sugeriu aproveitar parte da área do HIDS para instalar um biorreator para produzir biomassa para alimentos a partir de CO2, via fermentação microbiana, para ajudar a compensar as emissões de GEE. “Uma parte significativa das emissões dos gases do efeito estufa vêm justamente da produção de alimentos, daí a necessidade de produzir proteínas de forma mais eficiente em relação ao uso de recursos limitados de terra e água”, disse Pavan. “As emissões provenientes das atividades e do desenvolvimento urbano promovido pela estrutura do HIDS e seus parceiros geograficamente próximos podem ser mitigadas e usadas para produzir proteína para alimentos. Diferentes fluxos de resíduos, como resíduos urbanos, captura direta de ar e gases industriais, podem ser capturados e direcionados a um biorreator. H2 adicional será fornecido ao metabolismo do microrganismo por meio de fontes renováveis. A biomassa é coletada e enviada para processamento”, sugere a aluna da FEM (veja a imagem abaixo).

                                                                                                              Crédito: Marilene Pavan

Ela lembrou que algumas empresas como a Kiverdi (Air Protein) e a Solar Foods já demonstraram sucesso na produção e comercialização de alimentos a partir de CO2. Na verdade, essa ideia vem de uma pesquisa realizada pela NASA para produzir alimentos no espaço, para astronautas, por meio da produção de biomassa microbiana a partir do CO2 exalado pelos próprios astronautas, fechando o círculo. Além disso, de acordo com Pavan, já estão disponíveis os conhecimentos para montar biorreatores para fermentação hidrogenotrófica aeróbia, que aplica várias misturas gasosas de óxidos de carbono e hidrogênio.

Por Patricia Mariuzzo

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